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domingo, 21 de novembro de 2010

Entrevista com Irene Demouliere, psicóloga do CAPS Prof. Luis Meira Lessa

Na sexta-feira (19/11), integrantes da equipe estiveram no CAPS I Prof. Luis Meira Lessa, no Rio Vermelho, para conversar com Irene Guillien Demouliere, psicóloga da unidade. Abaixo, segue a transcrição da entrevista.

Quando o CAPS I Prof. Luis Meira Lessa surgiu?

Em 2006.

Há quanto tempo você trabalha no CAPS?

Há dois anos.

Ele é o único que atende ao público infantil na cidade?

Não. Existe outro CAPS I na Liberdade e, recentemente, foi inaugurado um CAPS III (Álcool e Drogas) para crianças e adolescentes no bairro de Pirajá.

Esse CAPS atende a pacientes de outros municípios?

Não. Inclusive, o atendimento se dá a partir da apresentação de comprovante de residência que comprove que o paciente mora em Salvador. Esse é um problema, pois às vezes chegam pacientes de outras cidades e temos que encaminhá-los para o CAPS de sua cidade. Essa é uma exigência da Prefeitura Municipal de Salvador.

Como é o funcionamento do CAPS?

Funcionamos de segunda a sexta-feira de 8h às 17h. Sexta-feira não fazemos acolhimento de novos pacientes. Sexta pela manhã, a equipe realiza reunião técnica para dialogar sobre a situação dos pacientes e à tarde os profissionais atendem a outros pacientes. A equipe é formada por aproximadamente 25 profissionais de diversas áreas. Temos psicólogos, psiquiatras, educador físico, enfermeiros, técnicos de enfermagem e terapeuta ocupacional. Mas acredito que a quantidade de profissionais existentes não é suficiente, pois muitas vezes não podemos agendar visitas individuais dos pacientes com um psicólogo.

Após a Lei 10.216 (Lei Paulo Delgado), houve mudanças no modo de tratamento de doenças mentais. Na prática, o que mudou?

Agora o paciente tem acesso a um tratamento mais humano, sem enclausuramento. O CAPS procura valorizar essa reintegração do paciente na comunidade, dando a possiblidade dele se sentir útil, não excluído.

E qual é a função dos hospitais psiquiátricos nesse processo?

Os hospitais psiquiátricos ainda devem existir, pois servem para atender às emergências. Os CAPS não tem a função de atender crises emergenciais, até porque a presença de psiquiatras aqui não é diária. Também não contamos com leitos e não possuímos autorização para aplicar medicamentos, uma vez que não temos estrutura apropriada.

Enquanto profissional, quais dificuldades são encontradas no serviço público de atendimento à saúde mental?

As dificuldades financeiras para custeio de transporte de pacientes são verificadas com frequência aqui na unidade. Não existe uma lei que reconheça o portador de transtorno mental como deficiente. Muitas vezes eles tem que retornar algumas vezes na semana e a família não tem como pagar seu transporte. A Prefeitura Municipal não conta com nenhuma iniciativa de auxílio nesse sentido.

Considerando outras experiências profissionais, como você compara o atendimento oferecido pelo CAPS com serviços particulares e de outros hospitais psiquiátricos?

Eu também trabalho em uma clínica particular e eu sinto que aqui o acompanhamento dos pacientes é mais próximo, existe um verdadeiro acolhimento. Manejamos nosso tempo de acordo com a necessidade dos pacientes. A clínica particular não oferece isso porque temos uma grade fixa de atendimento aos pacientes, o que não permite que o profissional se disponha a auxiliar um paciente fora de seu horário. Além disso, lá a equipe não dialoga tanto. Aqui nós temos um turno semanal para trocar ideias sobre os casos, enquanto, na outra clínica, temos apenas uma reunião mensal. O diálogo sobre as experiências dos profissionais enriquece nosso trabalho. Em relação aos instrumentos de trabalho, não há diferença, apenas as salas de atendimento no CAPS são menores e não oferecem tanto conforto.

A proposta dos CAPS é auxiliar na reintegração social dos pacientes. Como é realizado esse processo?

Nós estabelecemos contatos com várias instituições. Além de realizarmos passeios com as crianças e assembleias com a participação das mães, existe uma iniciativa de parceria com as escolas, que consiste na visita de profissionais às escolas que apresentam queixas dos pais, a fim de esclarecer aos educandos sobre doenças mentais. Para incluir os adolescentes no mercado de trabalho, estabelecemos parceria com o “Projeto Incluir” e a “Fundação Cidade Mãe”, que auxiliam na profissionalização destes jovens.

Baseado na recomendação do Ministério da Saúde, Salvador conta com quantidade insuficiente de CAPS. Isso influencia na qualidade do serviço?

Sem dúvida, o número de CAPS deveria ser ampliado, o ideal é que tivéssemos um CAPS por bairro. O agrupamento de muitos pacientes em uma unidade influi na queda da qualidade do serviço oferecido.

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